Santa Teresa de Ávila

Dia 15 de outubro

História: Santa Teresa de Ávila é genuinamente castelhana, com o humor superior da sua raça e a inteligência prática, a invasão do “moderno” nas regiões e sobretudo nos conventos carmelitanos foi para a santa o grande impulso em sua atividade.

São os santos que transformam o mundo, o verdadeiro sinal dos tempos, muito mais importantes que as forças diplomáticas e econômicas ou as novíssimas invenções da técnica militar.

Todos esses que hoje se agitam em breve estarão mortos e, nós, juntamente com eles. “Os santos não são acessórios de crenças passadas nem figuras de gesso inexpressivas.

O santo é um homem que possui a graça de levar o mundo mais a sério do que ele o merece; tão a sério que o seu caminho para o céu passa precisamente por este mundo”.

Levar o mundo a sério é a lição dos santos. Os santos não são infalíveis; mas são resolutos. Não vacilam entre um puerilismo ingênuo e a adoração do poder. Não são modernos; representam o eterno. Sabem que a espada do espírito é mais cortante que a espada de aço. Quem não acreditar estará perdido. Quem acreditar será salvo.

É esta a lição da grande Santa Teresa. Teresa de Cepeda y Ahumada, filha de um nobre da Espanha, filha da cidade castelhana de Ávila, cujas muralhas ciclópicas pareciam construídas para a eternidade. Teresa, embora tivesse passado os anos de sua infância embaladas pelos romances da cavalaria, escolhe o caminho da maior e mais necessária aventura: a vida religiosa.

Prepara-se para as cruzadas e para os martírios, abandonando o século e entrando para o convento do Carmo. Mas o que ela encontra no convento é a reforma do Concílio de Trento que parecia nada levar a sério neste mundo. As religiosas vivenciavam uma liberdade que a severidade castelhana proibia às mulheres do século. Escrevia a religiosa a seu pai: “A vida nos conventos é uma verdadeira comedia de capa e espada”, com suas serenatas e seus duelos.

O barulho das armas na Itália e em Flandres ecoava no parlatório, bem como o tilintar do ouro das Índias. “A súbita mudança de alimentação e de hábitos me fez cair doente”. Mas estava mais doente do que imaginava. Caiu em letargias que duraram dias e dias. Uma vez as irmãs chegaram a preparar-lhe a sepultura. Mas a morte não a arrebatou.

A leitura das Confissões de Santo Agostinho ensina-lhe o valor único da alma humana. O destino do mundo não depende das guerras de religiões nem das guerras de conquistas. É na alma humana que os destinos do mundo se decidem. Iluminada por essa sabedoria, Teresa apavora-se com as palavras evangélicas que ouvira durante a missa: “Vigilate itaque, quia nescitis diem neque horam” – “Velai, pois que não sabeis nem o dia nem a hora.”

Frase final da parábola das virgens sábias e das virgens loucas: das virgens sábias que prepararam as lâmpadas para as núpcias, e das virgens loucas que esqueceram o óleo, e as lâmpadas apagaram-se, e caiu a noite, e o noivo celeste não as reconheceu. Teresa está resolvida a não pertencer mais ao número das virgens loucas e quer reformar a Ordem.

Prontamente a virgem sábia foi considerada louca. Teresa cai em êxtases: vê o céu aberto, o anjo do Senhor lhe atinge o coração com uma flecha de amor. Mais que nunca, continua em seu intuito. Processam-na, prendem-na, porém não se deixa domar. “Essa visionária mística reúne em si a imaginação de Dom Quixote e a inteligência prática de Sancho Pança, e mais ainda: o humor superior e o gênio literário do criador dessas personagens imortais”.

Percorre toda a Espanha para fundar os trinta e dois conventos das Carmelitas descalças. Resiste ao rei Felipe II e a seus inquisidores, ao núncio apostólico e aos bispos, aos superiores, que a torturam cruelmente. Reclusa em Toledo, escreveu as obras místicas que a consagraram a primeira poetiza da literatura espanhola.

Escreve inúmeras cartas aos grandes do mundo e às religiosas dos seus conventos: cartas cheias de coragem indomável, de conselhos práticos, de um humor surpreendente e de uma sabedoria superior. Ao morrer, conseguira fazer o que o rei e o Grande Inquisidor não conseguiram: a Igreja na Espanha estava salva.

Santa Teresa recebeu pós-morte um monumento que Bernini esculpiu. Sobre um altar da igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma, vê-se a santa com os olhos fechados em êxtase, um sorriso encantador nos lábios; o anjo que lhe fere o coração com uma flecha de amor: é uma obra-prima da arte barroca; e compreende-se imediatamente a intenção genial do artista: Teresa era histérica? Louca? Um católico profundamente crente como o barão Huegel declara: “Nunca houve um santo visionário que tivesse uma saúde nervosa normal” (carta de 19 de novembro de 1898); e cita o livro do sábio bolandista P. Hahn S. J. sobre Santa Teresa.

Essa comprovação, que não é precipitada, coloca-nos diante de um problema sério, mais sério que a pretensa vizinhança entre o gênio, santidade e a loucura. Porque a histeria não é uma loucura. A histeria pode perfeitamente ser acompanhada a uma gêniosidade, pois que ela não afeta a inteligência.

A histeria é uma doença do caráter e é precisamente pelo caráter que se distingue o histérico egocêntrico e orgulhoso do santo teocentrista e humilde. Para o histérico, o mundo é um joguete em volta do seu eu; o santo sacrificou o seu eu a Deus, e toma o mundo a sério. Para os “normais”, para os pequenos-burgueses de espírito, o mundo do histérico e o mundo do santo parecem igualmente quiméricos. A pedra de toque de distinção é a ação. O mundo é um conjunto de material para a ação. O histérico, fechado dentro do seu eu, é incapaz de agir num mundo que ele mesmo criou e que não existe na realidade.

O santo é histérico em todas as aparências do seu mundo à parte, que os outros não compreendem, mas esse mundo é superior ao nosso mundo. Um interessante estudo de Georg Sebastian Faber distingue entre o histérico, assunto da psicanálise, e o homem superior, assunto deuma metapsicologia: ambos sofrem de uma dissociação da consciência; nos histéricos e esquizofrênicos, a dissociação da consciência provém de uma irrupção do subconsciente na consciência; a dissociação mental do homem superior provém da irrupção dum “supraconsciente”.

A doença mental paralisa a consciência; o supraconsciente enche o espírito com uma nova força superior, uma força de ação. A aparição de um santo é a invasão de nosso mundo pela eternidade. Por aí o santo é capaz de agir. Mais ainda: a sua santidade e atividade são a mesma coisa e transformam o mundo. Como reocnhê-los? “Pelas suas obras vós os reconhecereis.” “Porque as suas obras os seguem.”

A obra de Santa Teresa! Ela é a maior figura da história eclesiástica barroca; é uma grande figura da literatura espanhola; é uma das almas mais seráficas que a terra já viu. Santa Teresa foi uma grande psicóloga. O seu “Camino de Perfección” é tão realista e eterno quanto as estradas de Castela. O seu Castelo interior tem as muralhas tão duráveis como as da fortaleza de Ávila que Unamuno cantou. Na história da psicologia moderna, Teresa ocupa precisamente o mesmo lugar que o Agostinho das “Confissões”, na psicologia antiga.

A Antiguidade não conheceu o valor da alma individual; depois do desmoronamento do mundo antigo, Agostinho encontra a sua alma sozinha com o Criador: a alma humana é, realmente, o que há de maior valor sobre a terra.

Teresa foi despertada por Agostinho: ela viveu na época em que a Antiguidade ressuscitada pelo humanismo tinha feito esquecer o valor da alma humana. Se Teresa foi chamada “a criadora de um humanismo cristão”, foi porque acharam nas suas obras uma terminologia cujos efeitos eram incalculáveis sobre o espírito europeu: “Alma y Dios, Sola con El Solo” – estas palavras significam exatamente o valor incomparável da alma humana, que, ela só, resiste perante Deus; “Alma hermosa” – essa expressão salva toda a beleza das coisas deste mundo para os espaços infinitos do ‘Catolicismo’.

Oração da Santa Teresa de Ávila: Deixando teus pais, Teresa, quisestes aos mouros pregar, trazê-los todos à Cristo, ou teu sangue derramar. Pena porém mais suave o Esposo à ti reservou: tambares de amor ferida, ao dardo que te enviou. Acende, pois, nossas almas, na chama do eterno amor: jamais vejamos do inferno o fogo devorador. Louvamos contigo ao Filho, que ao trino Deus nos conduz, ele é o Jesus de Teresa, Tu Teresa de Jesus.

Devoção: A extirpação do modernismo corrupto da sociedade leiga e eclesiástica.

Padroeiro: México (assim como Nossa Senhora de Guadalupe)

Outros Santos do dia: São Calixto Deusdado (bispo); Fortunato, Agileu, (márts); Antíoco, Severo e Sebino (bispo) Aurélio (virgem) Tecla (ab); Leonardo e Gualtéio (abs.).

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